Primeiro vieram os wireframes, cada um compartilhado por muitas pessoas. Agora (em 1999, quando o texto de Weiser foi publicado) estamos na era do personal computing, onde máquina e pessoa se encaram desconfortavelmente através do desktop. Depois, será a vez da computação ubíqua, a era da calm technology, onde a tecnologia irá para o plano de fundo das nossas vidas.
No texto "The World is not a Desktop", ele se concentra nas previsões que costumam ser feque aitas com base em tecnologias já conhecidas, ou seja, em interfaces, e defende uma boa interface é uma interface que não seja percebida pelo usuário.
Isso é incrível e extremamente perigoso ao mesmo tempo. Vamos falar de um exemplo simples. A Amazon lançou um produto que tenta simplificar a compra de produtos do dia-a-dia, o Dash Button:
A ideia é que, em vez voltar ao computador e passar por todas as etapas de compra, ou ir ao supermercado ou loja mais próxima, a pessoa pode reestocar produtos da casa com esse simples toque de botão. Super conveniente, mas toda essa simplicidade também elimina partes do processo que podem ser importantes para algumas pessoas: escolher outra marca ou comparar preços, por exemplo.
Cada Dash Button é associado a uma marca - Tide, Gillete, Olay - e, mesmo podendo configurar o produto a ser comprado antes do uso, pode ser que no próximo clique, aquele produto escolhido não seja a melhor opção. Ou seja: quando a Amazon reduz a interface de compra, ela também reduz, ao menos por enquanto, a possibilidade de escolha de quem compra. Isso quer dizer que quanto menos presente a interface, menos escolhas conscientes o usuário pode fazer. E isso é muito importante.
De uma certa forma, a existência de uma interface ou, no mínimo um canal claro de controle e modificação dá uma certa segurança ao usuário. Experimentos que criam novas relações entre humanos e máquinas podem trazer soluções interessantes. O Blendie, da Kelly Dobson, por exemplo:
A pesquisa está longe de ter uma aplicação prática, mas diz muito sobre como as interações podem ser transformadas em algo agradável, confortante, e até mesmo divertido. Esse é um dos motivos pelo qual a cultura maker virou algo tão, para usar a terminologia do Weiser, ubíquo. Construir, costurar, reformar, revitalizar objetos antigos tem algo de prazeroso. E, por mais que o Spotify, as radios do iTunes, o Youtube e todos os outros serviços de streaming ofereçam praticamente qualquer música que se queira ouvir, eles não subtituem shows ao vivo, tocar o próprio instrumento ou simplesmente colocar um LP pra tocar na vitrola da sala. Existe função pra cada uma dessas interfaces musicais no mundo super tecnológico de hoje.
O projeto final da graduação em design de interfaces do alemão Florian Bron foi exatamente isso: ele "analogizou" a interface do iPad com o Modulares Interface:
Alguns meses antes, saía no The Verge um projeto de peças que expandem a interface do combo teclado/tablet/mouse a que estamos acostumados com ferramentas que podem trazer precisão de formas diferentes, que os dispositivos atuais não oferecem:
Esse também é o princípio do Makey Makey, que transforma qualquer objeto condutivo em interface:
Muitas vezes, até usar uma interface que já tenha ficado obsoleta para o uso corriqueiro pode render criações interessantes.
É por isso que muito filmes de ficção científica seguem a linha da humanização da tecnologia. O ursinho de pelúcia do AI de Speilberg, a Her do Spike Jonze ou até o Hal do Kubrick continuam sendo interfaces no sentido técnico, mas não passam aos seus usuários a sensação de estarem cumprindo tarefas, mas apenas relacionando-se, algo que exige muito menos esforço e é muito mais agradável.
Mas isso traz outras questões, como: que as máquinas vão ser capazes de reproduzir até comportamentos que hoje a gente considera peculiaridades humanas, como gosto? A criatividade? Será que essas são características calculáveis ou continuarão sendo especialidades nossas? Difícil saber, mas a questão já faz desperta a curiosidade de criativos hoje. Como o David Byrne. Em uma época onde serviços de streaming tentam recomendar músicas mais ao gosto de cada usuário Byrne escreve todo um artigo sobre o assunto e apresenta uma playlist incrível na BB6 sob o tema: "Am I Better Than an Algorithm?"
| Escute aqui |
A resposta, cada um de nós deve ter uma, todas diferentes. Mas a questão não deixa de ser importante: o que gostaríamos que fosse substituído pelos computadores e o que preferimos que seja analógico?
Então, respondendo à pergunta do título, não acho que uma coisa vai substituir a outra. Como o livro digital não substituiu o livro analógico, a tecnologia pode trazer novas formas de criatividade, conexões de informação, mas espaço para boas criações humanas deve continuar existindo, com todas as suas peculiaridades. E você, o que acha?
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Extra do dia:
O poeta e performer Rives conta, em uma apresentação para o TED, o que faria se controlasse a internet. É engraçado, criativo, emocional e diz muito sobre a pergunta que Byrne faz. Veja aqui.
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